
Mora cá, dentro de mim, alguém que eu nem conheço, sequer já vi. Apenas de longe, na penumbra do meu coração, consigo enxergar-lhe o vulto.Por vezes terno, pequenino, indefeso, frágil feito criança de colo. Noutras, imenso, robusto, em riste, pronto para qualquer batalha.
E esse ser sem rosto estabeleceu moradia assim, sem pedir licença, sem mais, nem porquê, sem bater na porta (deve ter pulado alguma janela que eu, desapercebida que sou, não tranquei). E se instalou completamente (de mala e cuia). Veio sorrateiro mas, agora, sente-se à vontade para dar palpites, bisbilhotar meus mais secretos pensamentos e, ainda mais: comandá-los, ditando-me atitudes e gestos jamais ousados.
Tal criatura tem mudado irremediavelmente minha existência febril. Pego-me, quando em vez, ríspida como nunca permitiram-me ser; alegre e cantarolando, cheia de graça; insensata e desatinada como sempre desejei; triste e chorosa, raramente e por razões bem mais justas que aquelas que, por tantas vezes, arrancaram-me soluços e lágrimas tão caros. Sorrio bem mais, esfusiantemente,chego a jogar a cabeça para trás enquanto ecoa uma das muitas gargalhadas (como aquelas belas mocinhas hollywoodianas). Que audácia maravilhosa!
E como a vida tem se desenhado mais limpa após a tua chegada, doce companheira! Todos os atalhos mostram-se visíveis ao longo do caminho, que também já consigo enxergar melhor (alguns palmos além da ponta dos pés, o que significa um enorme avanço para quem não erguia o olhar ao horizonte temendo a luz adiante ou um incrível buraco negro a aguardar o próximo passo).
Apesar desse teu aspecto bonachão, do teu comportamento inusitado, inesperado, me fazes tão bem que já não consigo, não quero e não permitirei que te afastes de mim. Estou apreciando deveras esta convivência velada, descompromissada e comprometedora; onde mesmo se não fomos apresentadas formalmente e nem sabemos ao certo onde nos encontraremos, se estaremos juntas nas próximas aventuras, já sintonizamo-nos de forma tal, uma na outra que, eu nem sei ao certo se já não és eu ou, se já não sou tu.
Outra eu,ésbem-vinda a qualquer instante (principalmente nos de apuros,pois te considero melhor preparada, sabes?), em todos os lugares que eu vá, em todas as situações. Não me deixes, não me contentaria a ser somente o que fui antes de te encontrar. Era quase nada,un "tantim assim de gente". Era só eu. Agora somos nós: eu e tu, outra eu. E podemos muito mais.
Querendo, alcançaremos distâncias inimagináveis, sonhos impossíveis, amores proibidos, êxtases de paixões.
Incansáveis, inarredáveis, infinitas, marcantes seremos nós. Assim como cheiro de chuva, como abraço de amigo, como beijo roubado, como a brisa do mar. Inesquecíveis.
Também não pouparemos nenhum, ninguém, nada. Todos, tudo estará alterado após a nossa passagem.
Se é desejo acompanhar-nos serão necessários ímpeto e fogo, coragem e perseverança, pois somos surpreendentemente voláteis. Enchemos e esvaziamos o copo de súbito, num gole.
Mas há uma constância: o trilhar. Sempre em busca de mais algum efeito, de outro novo sentimento aflorado, de mais ar.
Se houver força, siga-nos; se não, aguarde a próxima rodada.Quem sabe não resolveremos retornar?Sim, porque nesta trilha não estabelecemos regra nenhuma rígida, todas são facilmente mutáveis e o caminho sempre em frente, pode sim, um dia, exigir retorno em algumas paragens.