terça-feira, 25 de novembro de 2008

Divagar e sempre



Divagar... Exercício para apagar temporariamente os nós da consciência. Para que recriminarmo-nos pelos erros cometidos? Se não os tivéssemos feito, recriminar-nos-íamos pela covardia em não os tê-lo praticado. Cada etapa de nossa vida deve ser cumprida como instrumento de aprender e deve-se respeitar o senhor de todas as modificações: o tempo, este senhor incansável, implacável, “que a tudo se atreve” (já nos ensinava à longa data o Padre Vieira). Só ele, o tempo, tem o comando, segura nas mãos frias o leme, guia em quaisquer águas nosso barco e nos mostra ao longo da viagem, que não nos adiantará correr para tentar alcançá-lo ou superá-lo, ele sempre estará adiante, melhor é rumar junto com ele.
Divaguemos, pois, e sempre, porque nos devaneios encontramo-nos sempre nos melhores momentos da nossa vida (até parece coletânea de flash-back); são aquelas peraltices de menino, toda a graça em fazer o simples proibido da mãe, podem ser as vibrantes descobertas dos anos que se sucedem (que só há pouco se convencionou chamar adolescência), o olhar insistente do sexo oposto – a antiga “paquera”, o toque das mãos, o roçar de lábios e o melhor de tudo: poder contar à melhor amiga ou amigo todo o acontecimento; mas também há fantasia nas lembranças recentes, no caminhar por entre as folhas de ontem à tarde, nos risos de constatação tão mais lógicos que podemos compartilhar com os amigos de hoje (cada um tem séries de motivações patéticas para rir de si e nenhum constrangimento em divulgá-las); cada uma dessas pitorescas passagens fazem-nos divagar e nos retiram a carga de vivenciar o presente de olhos abertos, em sua totalidade; dá-nos a chance de não enxergar simultaneamente o belo e o ridículo que podemos ser. E assim, devagar, divaguemos sempre.

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